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“O Cotidiano Encantado nasce da memória, da terra e da forma encantada como aprendi a olhar o mundo.”

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Eu fui uma criança profundamente curiosa, encantada pelas coisas mais simples e completamente entregue àquilo que tocava o fundo da minha alma. Sempre existiu em mim uma espécie de chamada silenciosa. Algumas coisas simplesmente me puxavam, e a arte foi a principal delas. Nasci em berço de barro e cresci dentro de um universo onde as bonecas já existiam. A cultura já estava sendo construída todos os dias pelas mãos da mestra Izabel Mendes da Cunha, das mulheres da minha família e de tantas outras mulheres do Vale do Jequitinhonha. Quando eu cheguei, esse universo já estava em movimento. A nossa história já estava sendo contada e transformada pelo barro; a magia já estava acontecendo. Olhar para aquele universo de barro sempre foi um encantamento descomunal. Não existia explicação racional para aquilo. Era uma lógica silenciosa que me chamava, me puxava e me carregava para dentro daquele mundo. É como se eu já nascesse para aquilo. Parece que eu estava reencontrando algo de que eu estava com muita saudade. Hoje, eu trago essa mesma essência na minha arte. Eu sou descendência e ramificação dessa árvore, e talvez seja justamente por chegar e encontrar esse mundo vivo diante de mim que o meu olhar tenha se formado dessa maneira: um olhar que tenta enxergar a beleza que existe nas coisas. Porque quando a gente limpa a lente do olhar, a arte revela algo muito simples e poderoso: a capacidade de encantar. O Cotidiano Encantado nasce exatamente desse lugar, nasce da memória dessa criança, nasce da forma como eu enxergava o mundo naquele tempo. O que faço hoje é, de certa forma, traduzir minha visão da infância nas obras que crio. As bonecas continuam sendo as bonecas clássicas do Vale do Jequitinhonha, mas agora elas carregam algo a mais: o encantamento de uma vida inteira dedicada a ver, sentir e compartilhar a beleza simples do nosso cotidiano.

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As pérolas presentes nas obras representam as pessoas que construíram e continuam sustentando essa tradição. Cada pérola simboliza uma vida, uma memória e uma presença dentro da história da cerâmica do Vale do Jequitinhonha. A criação deixa de ser individual e passa a afirmar a força coletiva de uma cultura construída por muitas mãos ao longo do tempo.

 

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“As saias deixam de ser apenas vestimenta e passam a carregar o próprio Vale dentro de si.”

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Antes da boneca, existia o uso.

No Vale do Jequitinhonha, os potes, jarras e recipientes faziam parte da vida cotidiana muito antes da cerâmica figurativa ganhar reconhecimento artístico.

Como desdobramento do Cotidiano Encantado, criei uma coleção de utilitários que unem função, escultura e memória.

As formas dialogam com as cabeças das bonecas e com os antigos objetos do cotidiano do Vale, criando peças que transitam entre arte contemporânea e design autoral brasileiro.

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© 2035 por Pedro Castro.

Augustto Ribeiro ceramista do Vale do Jequitinhonha 

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