

A Imaginação que Nasce da Terra: Vale do Jequitinhonha
Do utilitário à expressão artística
No coração do Vale do Jequitinhonha, em Santana do Araçuaí, a arte das bonecas nasceu de uma necessidade humana primordial: a de expressar e revelar ao mundo a beleza que habita dentro de cada um de nós.
Em meio à aridez do território — onde a seca sempre foi presença constante — a água precisava ser transportada em potes, dos córregos até as casas, garantindo a sobrevivência cotidiana. O barro tornou-se guardião: ventre que acolhia a água e a conservava, permitindo que cada gota sustentasse as vidas que ali resistiam. Potes, panelas e moringas eram mais que utensílios — eram instrumentos de permanência.
Mas, dentro desse cotidiano árduo, havia algo além da necessidade. Havia Imaginação.
Na década de 1970, as mãos de Izabel Mendes da Cunha — moldadas pela tradição de sua mãe e de gerações de mulheres que a antecederam — começaram a deslocar o barro do campo exclusivamente utilitário para o campo simbólico. O pote tornou-se silhueta humana. A tampa da moringa transformou-se em cabeça. Assim nascia a clássica boneca do Vale.
A funcionalidade expandiu-se em linguagem. A matéria permaneceu a mesma: barro, técnica manual, pigmentos extraídos da terra. O que se transformou foi o gesto. A imaginação atravessou a tradição sem rompê-la. A arte libertou-se, sem abandonar suas raízes mais ancestrais.
O que era objeto de uso, tornou-se símbolo. O que era necessidade, tornou-se expressão identitária de um território.
Com generosidade, Dona Izabel ensinou filhos, vizinhos e amigos. A tradição tornou-se escola viva. Cada artista passou a recriar a linguagem “ao seu modo”, mantendo vínculo com a terra e com a técnica, ao mesmo tempo em que afirmava sua identidade própria. Assim se consolidou uma das vertentes mais reconhecidas da arte popular brasileira.
As obras reunidas nesta exposição não pertencem a um único tempo. São bonecas de diferentes temporalidades colocadas em convivência, formando um corpo coletivo que atravessa gerações da cerâmica figurativa do Vale do Jequitinhonha.
Aqui, passado, presente e continuidade coexistem.
Estão reunidas as primeiras bonecas surgidas no processo de consolidação dessa linguagem — quando o barro começa a assumir forma humana — até criações contemporâneas que ampliam essa tradição sem romper com sua origem. O que se vê não é uma linha evolutiva, mas uma permanência viva do gesto criador, constantemente reinventado.
Das criações da mestra Dona Izabel às suas primeiras alunas, como Placidina — ainda no período das bonecas com poucas cores —, Depois surgem nomes como Maurina, João Pereira, seus filhos Amadeu, Glória Maria, Maria Madalena, e, mais adiante, artistas como: sua neta Andréia, Aneli, Ana, Alice, Augustto, e também influências que se estendem a artesãs da região, como Zezinha e Irene, esta exposição evidencia uma linhagem viva.
Ao reunir diferentes épocas no mesmo espaço, propõe-se uma leitura em que tradição não é algo fixo ou encerrado no passado. Tradição é movimento. Cada peça carrega as marcas do seu tempo — das condições de vida, das transformações sociais, das experiências pessoais — e, simultaneamente, dialoga com aquelas que vieram antes.
Celebramos aqui não apenas as bonecas do Vale do Jequitinhonha, mas a Chama que atravessa gerações. Esta arte não é um ponto isolado na história; é um fio contínuo que une mestres e aprendizes, permanência e reinvenção.
Como curador e artista inserido nessa linhagem, apresento este conjunto não apenas como organização estética, mas como testemunho vivo de uma continuidade cultural. Cada peça exposta é fragmento de uma energia coletiva, expressão da nossa gente e da nossa terra.
A imaginação não nasce dissociada da realidade. Ela brota da própria matéria, da escassez transformada em potência criativa.
A imaginação que nasce da terra é gesto, é identidade, é memória materializada no barro — e permanece com a Chama acesa na continuidade de cada geração.
Curadoria Augustto Ribeiro















"A IMAGINAÇÃO QUE NASCE DA TERRA: VALE DO JEQUITINHONHA - Do utilitário à expressão artística"
Curadoria: Augustto Ribeiro
Artistas
SANTANA DO ARAÇUAÍ /MG
Izabel Mendes da Cunha
Placedina Nascimento
João Pereira de Andrade
Maurina Pereira dos Santos (Teca)
Maria Madalena Mendes Braga
Amadeu Mendes Braga
Mercinda Braga
Glória Maria
Andreia Pereira Andrade
Ana Ribeiro
Alice Ribeiro
Augustto Ribeiro
Aneli Brandao
Anita Justino
Maria do Carmo Rocha
Ildete Ferreira
Maria Munis
Cleonice Barbosa
Zenilda Alves da Conceição
CAMPO ALEGRE/MG
Zezinha
Irene
Fotografias: Cesar Tropia
Projeto Gráfico: Tarciene Arrieta
CENTRO DE ARTE POPULAR
Coordenadora Centro de Arte Popular:
Angelina Gonçalves de Faria Pereira
📍 Centro de Arte Popular – Belo Horizonte
🗓 Visitação: 18 de março até 21 de junho de 2026
🎟 Entrada gratuita

